Já faz um quase um ano que Itiro Karyia lançou o Buraco RPG, um joguinho bastante divertido sobre garis do futuro.
Vou resenhar o jogo, pois um dos meus objetivos é mostrar que, mesmo não havendo opções no “MERCADO NACIONAL DE RPG”, existe variedade na blogosfera do Role Playing Game (RPG), o que nos possibilita experimentar atividades divertidas por preços módicos.
Vivendo no Buraco
No mundo do Buraco, os detritos despejados no esgoto de uma metrópole originaram formas de vida monstruosas que não devem chegar à superfície, onde vivem pessoas nem um pouco desconfiadas da existência destas anomalias. Para impedir que esta situação mude, a Companhia de Saneamento contrata gente desesperada (por causa de dívidas, perseguições, processos judiciais, depressão, etc.) para fazer uma faxina no Buraco em que se tornou o esgoto da cidade.
O único papel reservado aos personagens dos jogadores: agentes de limpeza da Companhia de Saneamento competindo para sair do Buraco. Resta aos Mestres de plantão atuar como jogadores, pois outra peculiaridade do jogo está na ausência de Mestre e na apresentação de regras que geram aventuras automaticamente durante a partida.
O jogo tem uma proposta cativante, embora mal realizada pelo módulo básico. A proposta: um jogo, tudo indica que um RPG, competitivo, no qual as regras distribuiriam entre os jogadores as principais funções do Mestre: propor o desafio e dizer o que acontece aos personagens. E a má realização: um texto tomado de erros gramaticais e de estruturação; e regras ligeiramente confusas.

Personagens muito legais
Os personagens são construídos por meio de quatro perguntas:
a) Qual seu nome?
b) Como ele é?
c) Por que foi parar no Buraco?
d) Por que quer sair do Buraco?
Além destas estatísticas puramente descritivas, há quatro numérico-descritivas: Estresse (o quão afetado seu personagem está pelos agruras de seu novo emprego), Mão (quantas cartas o jogador pode manipular), Créditos Oficiais (grana que compra seu retorno à superfície e paga médicos e outros serviços monopolizados pela Companhia) e Créditos Por Fora (grana paralela, usada nos contrabandos).
Para escapulir do Buraco, seu personagem deve juntar uma quantidade de Créditos Oficiais igual à sua Mão mais um. Para aumentar a Mão, precisa investir “6 pontos” (p. 10). 6 pontos de que? Deduzo que de Créditos Oficiais. Ou Por Fora. Bom, tangenciamos um problema comum no livro: a precariedade do texto que conduz a um difícil entendimento das regras.
É quase impossível entender as regra de jogo
Buraco RPG consome apenas 13 páginas A4. Contudo, são 13 páginas mais pedregosas do que muitas 1300 páginas mundo afora. Não porque o conteúdo delas seja muito exigente. Mas, como sabemos, o sentido das frases depende da pontuação, e neste quesito o autor falhou o tempo todo. Um agravante é a falta de exemplos. Um dos poucos, na página 11, se assemelha mais a uma intervenção preguiçosa do que uma vontade de clarificar. Nenhuma folha ficou ilesa de minha caneta, ávida por descobrir sentidos que a falta de pontuação insistia em ocultar.
O centro do jogo
Personagens prontos, os jogadores se armam de um baralho, sacam 9 cartas cada um, e vão baixando Objetivos (o que os agentes de limpeza podem fazer) e Atributos (equipamentos como canhões, tanques de guerra, ogivas nucleares, etc.) e Ações (pulos, tiros, etc.) para superar estes Objetivos.
O jogador que colocar a combinação de cartas mais poderosa num Objetivo é quem o fecha, descrevendo o que acontece aos companheiros e recebendo cartas do monte de descarte. Porém, é o autor do Objetivo quem recebe 1 Crédito Oficial por Objetivo fechado.
O núcleo da atividade é este. Como jogador, você desce um Objetivo, por exemplo, “matar o monstro verde”. Outro jogador põe neste Objetivo uma ação ou um Atributo, como “Tiro de canhão”. Os demais jogadores fazem o mesmo. No fim, quem tiver baixado as melhores cartas fecha o Objetivo, ganha umas cartas e dá o lucro ao autor do Objetivo.
Soa esquisito? De fato, é esquisito. Itiro explica (p. 13) que isto se deve à necessidade de premiar quem cria o principal elemento de andamento do jogo, os Objetivos. Concordo com isto. Mas, num jogo competitivo, um pouco da diversão costuma estar na nossa capacidade de solapar o esforço alheio. Mas tudo bem.
Problemas nas regras
Algo nas regras que não é uma esquisitice, mas um problema mesmo, é que são intrincadas. Elas envolvem escrita em post-it, descrição falada, idade dos participantes e até cronômetros.
Escrever em post-it? Tudo bem.
Descrição falada? Tudo bem.
Idade dos participantes? Muita gente vai ficar constrangida.
Cronômetros? Aí é exagero.
De resto, as regras são boas. Eu, se um dia fizer uma mesa de Buraco RPG, cortarei a idade dos participantes e os cronômetros imediatamente. Também alisarei outras regras, complexas demais para a gente lembrar no calor da jogatina. Mas, no geral, elas parecem boas. E seriam certamente boas se o texto em que foram apresentadas não fosse tão ruim.
Um jogo que merece atenção
Buraco RPG merece atenção. Suas falhas graves não passam de erros gramaticais. Suas qualidades se devem a uma criatividade intensa tanto nas regras quanto no cenário.
O cenário é muito envolvente. Descrito de forma ligeira e precisa, revelou uma capacidade de recortar a imaginação rara entre os criadores de jogos. Empolga topar com um jogo que define seus termos já de início, sem pretender pescar o maior público possível por meio de uma retórica de esquina, do tipo “este RPG é isto, mas pode ser qualquer coisa”. O Buraco RPG é sobre um grupo de agentes de limpeza lançados numa duvidosa luta para reconquistar a dignidade como seres humanos. E ponto final.
As regras são interessantes, sobretudo porque dispensam tanto Mestres quanto finais de semana inteiros investidos em compor aventuras. Neste ponto, o sistema de Buraco RPG interessa a todos aqueles que querem aumentar a participação dos jogadores no desenrolar da aventura e que também esperam reduzir a carga de trabalho solitário do Mestre.
Até hoje não encontrei alguém disposto a jogar Buraco RPG (até porque isto envolve um exercício de leitura torturante). Para dizer a verdade, eu próprio não participaria de uma mesa de Buraco RPG antes de redigir novamente o módulo básico, alisando regras esquisitas e corrigindo o texto. Mesmo assim, tudo leva a crer que a idéia central originaria partidas divertidas. Aguardemos, enfim, uma versão revisada.
Escrito por Camilo 
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Paul Czege é o autor do indie-rpg
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