O incrível lobo das neves

Janeiro 18, 2009

Jack London é um de meus escritores prediletos. Ele assumiu seu posto de surpresa, bem ao estilo dos heróis de seus livros: os lobos das terras gélidas da América do Norte, que puxavam trenós de homens sedentos por ouro e enfrentavam a natureza selvagem e a selvageria humana para sobreviver.

JackLondon
LOBOS E HOMENS

Tudo se passou assim: comecei a ler O Chamado da Floresta e me surpreendi ao saber que Buck não se importava com os jornais porque era um cachorro. Claro que sabia que animais não lêem, mas também desde a infância não via um cão protagonizar um romance. Ainda mais uma investigação sobre a conversão da civilização em barbárie. Não é à toa que o título original é “The call of the wild”.

Mais tarde foi a vez da antologia de contos “The call of the wild and selected stories”, da Signet Classics (este, muito baratinho, comprei em loja virtual). Descobrir London em português e depois em seu idioma natal foi uma de minhas melhores experiências literárias.

Lá estava a história de “Diable — a dog”, retratando um animal tão perverso e sanguinário quanto seu dono. “To build a fire”, com um homem perdido na imensidão ártica, lutando para acender uma fogueira, sua única chance de sobreviver ao clima glacial. E “Love of life”, em que um viajante disputa palmo a palmo seu direito à vida com um lobo tão faminto e enfraquecido quanto ele.

Não poderia me esquecer de Caninos Brancos. Aqui o caminho é o inverso de “The call of the wild”: Buck era o cão domesticado que ouviu as vozes da floresta; mas Caninos Brancos é o lobo que aprende com os deuses humanos a odiar sua própria raça e a confortar-se ao lado da fogueira. Ele sofre, sim, é claro que ele sofre, pois a civilização possui regras duras.

NUM NAVIO CHAMADO GHOST

Outro livro de London, “O lobo do mar”, não trata de lobos e homens, mas de um navio controlado por um capitão extremamente violento, cruel e amoral — Lobo Larsen, o homem que enxerga a existência humana como mero fermento mobilizado por músculos, ossos e nervos. Ele é o homem primitivo, entregue aos instintos, o arauto da lei do mais forte. Lobo Larsen é o contraponto do protagonista, o intelectual Van Weyden. Juntos no Ghost, navio de caçar focas, eles se chocam, se medem, se enfrentam. Os ecos de Moby Dick, clássico baleeiro de Melville, são evidentes nos personagens elevados a arquétipos. Embora muito elogiado, eu particularmente não gostei muito: Larsen e Weyden me soaram simplistas…

O HOMEM DO ABISMO

London teve uma trajetória tão desencontrada e brutal quanto a de seus heróis caninos. Nascido em família pobre em 1876, nos Estados Unidos, cedo perdeu o pai. Com 13 anos, após a morte do padrasto, virou o homem da família e chegou a trabalhar 14 horas por dia em fábricas. Cansado delas, transformou-se em vagabundo: viajava de vagão em vagão pelas ferrovias norte-americanas, até ser preso por um tempo.

Novamente livre, matriculou-se num pesqueiro e zarpou pelo oceano. Mais tarde, participou da corrida do ouro na Califórnia, ocasião em que contraiu doenças e quase morreu. Um belo dia decidiu escrever suas aventuras como contos literários e vender para revistas. O público adorou os cenários e personagens exóticos. E também apreciou o estilo direto e vigoroso do autor. Para ter mais dinheiro, tornou-se jornalista e partiu para cobrir a Guerra Russo-Japonesa. Único repórter a alcançar as linhas de combate, foi preso e quase o fuzilaram. Foi desse ímpeto jornalístico que surgiu O Povo do Abismo.

Jack London estava na Inglaterra esperando para embarcar para a África do Sul e cobrir a Guerra dos Bôeres. Não veio autorização. Então, ele mergulhou nas favelas londrinas, das quais voltou com um retrato do cotidiano sórdido do povo humilde, “O povo do abismo”.

De vagões e vagabundos  exumou seu passado infernal: a época de trabalho infantil em fábricas brutais; a vagabundagem nas linhas férreas; e prisão, sofridos dias no xadrez, trabalhando como escravo, corrompendo-se para sair vivo. Também tem o forte relato sobre sua adesão ao socialismo revolucionário.

Ainda nesse período, começo do século 20, redigiu “Martin Eden”, “As vozes da floresta”, “O lobo do mar” e “Caninos brancos”. Mas sua saúde se arruinara. Ele bebia demais, injetava drogas, escrevia 15 horas por dia — vivia em excesso. Jack London morreu em 22 de novembro de 1916. Uns dizem que se suicidou com uma dose cavalar de morfina. Outros que seu organismo arrebentou por si mesmo. Mas morreu. Tinha quarenta anos. E seu legado é um chamado irrecusável à aventura.
Obs.: embora eu tenha ativado links para as edições de Jack London pela LP&M, na verdade comprei meus exemplares em sebo, todos do extinto Círculo do Livro (dos idos dos anos 80, quando mal éramos nascidos…), exceto “De vagões e vagabundos”, que li da LP&M sem ter do que reclamar; e o volume da Sgnet Classics, que viaja comigo para todo lugar.


FAÇA DA HISTÓRIA UMA AVENTURA

Junho 10, 2008

O estilo de RPG mais famoso, a fantasia medieval, remete imediatamente a castelos, lendas, guerras, armamentos e costumes da nossa Idade Média.

Mas como aproveitar um texto de história para enriquecer uma aventura?

Vou sugerir um percurso de leitura que contribui para o Mestre perceber melhor os componentes da maioria dos textos de história e assim selecionar o que entra e o que não entra em sua aventura.

Resumo abaixo minha proposta para você rejeitá-la de vez ou seguir em frente:

DISTINGUA OS ELEMENTOS DO TEXTO E O ENTENDA. DEPOIS, COLOQUE ESSA LEITURA EM SUA AVENTURA COM A LIBERDADE QUE PRECISAR. SE UM NOME DE PERSONAGEM LHE AGRADA, SE SUAS AÇÕES SÃO INTERESSANTES PARA SUA INTRIGA, MAS VOCÊ NÃO SABE EXATAMENTE DE QUANDO A QUANDO ELE VIVEU, QUAL SUA ALTURA, ETC. INVENTE ESSAS COISAS E SE DIVIRTA!

Dividi este post em três partes: 1) a escolha da leitura; 2) uma maneira de ler textos de história; 3) dicas sobre como transformar a leitura em aventura.

1. ESCOLHENDO REVISTAS E LIVROS DE DIVULGAÇÃO

Esta proposta funciona para materiais de divulgação, tanto livros quanto revistas especializadas em história (confira no final uma listagem). Historiadores acadêmicos, bem mais complexos, demandam tanto uma abordagem mais refinada quanto leitores dispostos a aturá-los por dias a fio.

Ao percorrer livrarias e bibliotecas em busca de materiais de divulgação, fique atento para catálogos e Atlas históricos. Eles valem a pena exclusivamente quando ilustrados com fortalezas, jóias, mapas, máquinas, roupas, etc. que contribuam para caracterizar seu cenários de jogo.

2. LENDO UM TEXTO DE HISTÓRIA

Listo abaixo tópicos que nunca podem faltar no bloco de leitura do Mestre:

>>> Nome da revista, livro, etc., bem como nome do autor e páginas em que se encontra a matéria ou capítulo (esses dados facilitam consultas posteriores).

>>> Assunto: sobre o que fala o texto: Idade Média, Segunda Guerra Mundial, Gulags soviéticos, Revolução Francesa, Ascensão do Capitalismo?

>>> Época retratada: em que período se situam os fatos do texto? Note que os historiadores podem escrever sobre séculos ou apenas alguns dias com praticamente a mesma quantidade de palavras. A história do mundo poderia caber em um parágrafo assim como a história de um dia poderia se estender por todo um livro. O importante, nesse tópico, não é anotar todas as datas ou chegar a um período fechado (1725-1746, por exemplo), mas perceber o período amplo retratado pelo texto (século 18, segunda metade do século 20, etc.).

>>> Localização retratada: também aqui, como em “Época retratada”, o importante é o espaço amplo abordado pelo texto: Brasil, Europa, China, Ocidente, etc. com referências ligeiras aos locais específicos (Brasil, nordeste açucareiro).

>>> Personalidades: quais as pessoas e grupos sociais que aparecem no texto? Quais os papéis deles? Quando aparecem, desaparecem e por quê?

>>> Eventos: quais eventos acontecem no período retratado? Guerras, epidemias, revoluções, assaltos, inovações tecnológicas?

>>> Locais: quais locais integram o texto? Cafés freqüentados pela boêmia revolucionária, castelos sitiados, vilas fundadas, países conquistados?

>>> Argumento central: nem todos os textos de divulgação possuem argumentos centrais. Isso é privilégio dos bons. O argumento central tem a ver com o propósito do texto, ou seja, com o que ele pretende demonstrar e com o que o leitor conclui que ele efetivamente demonstra. Por exemplo, um bom artigo sobre a Revolução Francesa arrola personalidades, locais e eventos para demonstrar que esta conturbação francesa foi muito importante para o mundo porque dela se originaram os ideais de liberdade que até hoje impedem que sejamos presos sem mais nem menos por um policial. Outro pode arrolar personalidades, locais e eventos para demonstrar que a Revolução Francesa significou apenas a subida ao poder de um grupo social diferente dos antigos senhores feudais. Há historiadores, ainda, que arrolam personalidades, locais e eventos para demonstrar que a Revolução Francesa se resumiu a uma invenção imagética criada por grupos posteriores ao 1789: o realmente acontecido não passaria de uma turbulência social como outra qualquer.

Você pode organizar sua leitura num bloco de anotações dividido em “título do livro e autoria”, “assunto”, “época retratada”, “localização retratada”, “personalidades”, “eventos”, “locais” e “argumento central”.

3. CONVERTENDO A LEITURA EM RPG

Agora que você já leu, você conhece personalidades, locais e eventos. Conhece também um argumento central. Como lidar com eles? Um caminho é o seguinte:

ARGUMENTOS CENTRAIS ORIGINAM BOAS INTRIGAS PARA SUA AVENTURA. PERSONALIDADES, LOCAIS E EVENTOS COMPLEMENTAM ESSA INTRIGA E SE ENRIQUECEM MUITO SE VOCÊ OS COMPLETA COM SUA IMAGINAÇÃO E OS MISTURA COM PERSONAGENS, LUGARES E EVENTOS FICTÍCIOS. MUITOS LIVROS DE HISTÓRIA MOSTRAM PAISAGENS, PLANTAS DE PALÁCIOS, ARMAS E COSTUMES QUE PODEM SER APROVEITADOS EM PRATICAMENTE QUALQUER AVENTURA.

ATENÇÃO, MESTRE: SUA MESA DE JOGO NÃO É UMA SALA DE AULA.

NADA OBRIGA O JOGO A SEGUIR FIELMENTE O TEXTO QUE O INSPIRA.

NÃO SE PREOCUPE COM A VERDADE HISTÓRICA, COM OS DOCUMENTOS, COM A PROVA DE SEUS JOGADORES, COM NADA EXCETO A DIVERSÃO QUE A HISTÓRIA PROPORCIONA CONFORME SUA HABILIDADE DE SE APROPRIAR DELA DE MANEIRA CRIATIVA.

4. CONCLUSÃO EM FORMA DE ANEDOTA

Isaac Asimov inventou a queda do Império Intergaláctico a partir de “A queda do império romano”, de Edward Gibbon.

O RPG pede dos jogadores uma postura semelhante: que vejam a história como um poço de idéias mais completo do que qualquer módulo básico sonharia em ser.

O desafio é continuar imaginando ao abrir um livro de história.

5. LIVROS E REVISTAS RECOMENDADOS

LIVROS
>>> “1808”, de Laurentino Gomes, Editora Planeta.
>>> “O conflito com o Paraguai: a grande guerra do Brasil”, de Francisco Doratioto, Editora Ática.
>>> “Imperialismo greco-romano”, de Norberto Luiz Guarinello, Editora Ática.
>>> “A reforma agrária na Roma Antiga”, de Maria Luiza Corassin, Editora Brasiliense.
>>> “Guerra Civil Americana”, de Peter L. Eisenberg, Editora Brasiliense.

REVISTAS
>>> História Viva <http://www2.uol.com.br/historiaviva>.
>>> Revista de História da Biblioteca Nacional <http://www.revistadehistoria.com.br>.
>>> “E Portugal fugiu para o Brasil”: dossiê da Revista de História da Biblioteca Nacional inteirinho dedicado à vinda de D. João 6º para o Brasil. Reúne diversos artigos publicados pela revista ao longo de sua existência. Ótimo. E o melhor: completamente de graça em formato eletrônico. Acesse já em: <http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=1273>.