
O idoso senhor Smith conta a três meninos, Hoo-Hoo, Edwin e Lábio Leporino, sobre sua juventude, quando as pessoas vestiam roupas como as nossas, viajavam de carro e avião, e conversavam por meio de cabos telefônicos. Mas os garotos riem da fala antiquada do avô, de sua mania de insistir em que letras e números querem dizer alguma coisa; e Lábio Leporino se revolta quando Smith fala Morte Escarlate ao invés de Morte Vermelha. Se vermelho é vermelho, por que empregar escarlate?
Este cenário insólito e esta dúvida infantil são o ponto de partida de A Praga Escarlate, publicada em 1912 por ninguém menos que Jack London Jack London, escritor norte-americano que conquistou fama na passagem do século 19 para o 20 com histórias sobre lobos e homens obstinados que perdiam a vida escavando ouro no Alasca.
Em “A praga escarlate”, descobrimos que logo após a irrupção da terrível febre pantoblástica no Brasil, em 1984, alastrou-se um mal ainda pior, a Morte Escarlate, doença incurável que dizimou quase todos os oito bilhões de terráqueos antes de desaparecer. Sobraram rarefeitos humanos obrigados a caçar para sobreviver. Aparecem nas palavras do senhor Smith referências explícitas a conselhos de magnatas industriais que controlavam o mundo antes da eclosão desta versão biológica do apocalipse bíblico.
Além da semelhança entre estes fatos fantásticos e eventos atuais como as 6 bilhões de pessoas que povoam o planeta, a gripe aviária que assola o oriente, a OMC (Organização Mundial do Comércio) que controla quem entra no mundo globalizado, outra perturbadora coincidência revela a envergadura da reflexão fantástica de London: a dificuldade encontrada pelo vovô Smith na hora de se comunicar com seus netos. A peste fora brutal a ponto de abrir um fosso entre as gerações: para os meninos, palavras como telefone, dinheiro, avião e aquário simplesmente não significam nada.
Hoje em dia, não uma praga, mas o próprio aperfeiçoamento tecnológico gerou um abismo entre avós, pais e filhos: o mundo cibernético das crianças chega a ser completamente incompreensível para o mundo industrial dos pais, o que não dizer para o mundo artesanal dos avós. E o mesmo rompimento ocorre quando os jovens bocejam ao ouvir as histórias de antigamente.
Vivemos a incomunicabilidade entre as gerações. Quem sabe, se tomarmos cuidado com venenos agrícolas, remédios excessivos e alimentos geneticamente modificados, possamos evitar o apocalipse biológico. Mas será que um dia voltaremos a encontrar sentido nas palavras dos mais velhos?
Escrito por Camilo 
Escrito por Camilo