Apocalipse e Isolamento em “A Praga Escarlate”, de Jack London

Março 28, 2009

pragaescarlate

O idoso senhor Smith conta a três meninos, Hoo-Hoo, Edwin e Lábio Leporino, sobre sua juventude, quando as pessoas vestiam roupas como as nossas, viajavam de carro e avião, e conversavam por meio de cabos telefônicos. Mas os garotos riem da fala antiquada do avô, de sua mania de insistir em que letras e números querem dizer alguma coisa; e Lábio Leporino se revolta quando Smith fala Morte Escarlate ao invés de Morte Vermelha. Se vermelho é vermelho, por que empregar escarlate?

Este cenário insólito e esta dúvida infantil são o ponto de partida de A Praga Escarlate, publicada em 1912 por ninguém menos que Jack London Jack London, escritor norte-americano que conquistou fama na passagem do século 19 para o 20 com histórias sobre lobos e homens obstinados que perdiam a vida escavando ouro no Alasca.

Em “A praga escarlate”, descobrimos que logo após a irrupção da terrível febre pantoblástica no Brasil, em 1984, alastrou-se um mal ainda pior, a Morte Escarlate, doença incurável que dizimou quase todos os oito bilhões de terráqueos antes de desaparecer. Sobraram rarefeitos humanos obrigados a caçar para sobreviver. Aparecem nas palavras do senhor Smith referências explícitas a conselhos de magnatas industriais que controlavam o mundo antes da eclosão desta versão biológica do apocalipse bíblico.

Além da semelhança entre estes fatos fantásticos e eventos atuais como as 6 bilhões de pessoas que povoam o planeta, a gripe aviária que assola o oriente, a OMC (Organização Mundial do Comércio) que controla quem entra no mundo globalizado, outra perturbadora coincidência revela a envergadura da reflexão fantástica de London: a dificuldade encontrada pelo vovô Smith na hora de se comunicar com seus netos. A peste fora brutal a ponto de abrir um fosso entre as gerações: para os meninos, palavras como telefone, dinheiro, avião e aquário simplesmente não significam nada.

Hoje em dia, não uma praga, mas o próprio aperfeiçoamento tecnológico gerou um abismo entre avós, pais e filhos: o mundo cibernético das crianças chega a ser completamente incompreensível para o mundo industrial dos pais, o que não dizer para o mundo artesanal dos avós. E o mesmo rompimento ocorre quando os jovens bocejam ao ouvir as histórias de antigamente.

Vivemos a incomunicabilidade entre as gerações. Quem sabe, se tomarmos cuidado com venenos agrícolas, remédios excessivos e alimentos geneticamente modificados, possamos evitar o apocalipse biológico. Mas será que um dia voltaremos a encontrar sentido nas palavras dos mais velhos?


O incrível lobo das neves

Janeiro 18, 2009

Jack London é um de meus escritores prediletos. Ele assumiu seu posto de surpresa, bem ao estilo dos heróis de seus livros: os lobos das terras gélidas da América do Norte, que puxavam trenós de homens sedentos por ouro e enfrentavam a natureza selvagem e a selvageria humana para sobreviver.

JackLondon
LOBOS E HOMENS

Tudo se passou assim: comecei a ler O Chamado da Floresta e me surpreendi ao saber que Buck não se importava com os jornais porque era um cachorro. Claro que sabia que animais não lêem, mas também desde a infância não via um cão protagonizar um romance. Ainda mais uma investigação sobre a conversão da civilização em barbárie. Não é à toa que o título original é “The call of the wild”.

Mais tarde foi a vez da antologia de contos “The call of the wild and selected stories”, da Signet Classics (este, muito baratinho, comprei em loja virtual). Descobrir London em português e depois em seu idioma natal foi uma de minhas melhores experiências literárias.

Lá estava a história de “Diable — a dog”, retratando um animal tão perverso e sanguinário quanto seu dono. “To build a fire”, com um homem perdido na imensidão ártica, lutando para acender uma fogueira, sua única chance de sobreviver ao clima glacial. E “Love of life”, em que um viajante disputa palmo a palmo seu direito à vida com um lobo tão faminto e enfraquecido quanto ele.

Não poderia me esquecer de Caninos Brancos. Aqui o caminho é o inverso de “The call of the wild”: Buck era o cão domesticado que ouviu as vozes da floresta; mas Caninos Brancos é o lobo que aprende com os deuses humanos a odiar sua própria raça e a confortar-se ao lado da fogueira. Ele sofre, sim, é claro que ele sofre, pois a civilização possui regras duras.

NUM NAVIO CHAMADO GHOST

Outro livro de London, “O lobo do mar”, não trata de lobos e homens, mas de um navio controlado por um capitão extremamente violento, cruel e amoral — Lobo Larsen, o homem que enxerga a existência humana como mero fermento mobilizado por músculos, ossos e nervos. Ele é o homem primitivo, entregue aos instintos, o arauto da lei do mais forte. Lobo Larsen é o contraponto do protagonista, o intelectual Van Weyden. Juntos no Ghost, navio de caçar focas, eles se chocam, se medem, se enfrentam. Os ecos de Moby Dick, clássico baleeiro de Melville, são evidentes nos personagens elevados a arquétipos. Embora muito elogiado, eu particularmente não gostei muito: Larsen e Weyden me soaram simplistas…

O HOMEM DO ABISMO

London teve uma trajetória tão desencontrada e brutal quanto a de seus heróis caninos. Nascido em família pobre em 1876, nos Estados Unidos, cedo perdeu o pai. Com 13 anos, após a morte do padrasto, virou o homem da família e chegou a trabalhar 14 horas por dia em fábricas. Cansado delas, transformou-se em vagabundo: viajava de vagão em vagão pelas ferrovias norte-americanas, até ser preso por um tempo.

Novamente livre, matriculou-se num pesqueiro e zarpou pelo oceano. Mais tarde, participou da corrida do ouro na Califórnia, ocasião em que contraiu doenças e quase morreu. Um belo dia decidiu escrever suas aventuras como contos literários e vender para revistas. O público adorou os cenários e personagens exóticos. E também apreciou o estilo direto e vigoroso do autor. Para ter mais dinheiro, tornou-se jornalista e partiu para cobrir a Guerra Russo-Japonesa. Único repórter a alcançar as linhas de combate, foi preso e quase o fuzilaram. Foi desse ímpeto jornalístico que surgiu O Povo do Abismo.

Jack London estava na Inglaterra esperando para embarcar para a África do Sul e cobrir a Guerra dos Bôeres. Não veio autorização. Então, ele mergulhou nas favelas londrinas, das quais voltou com um retrato do cotidiano sórdido do povo humilde, “O povo do abismo”.

De vagões e vagabundos  exumou seu passado infernal: a época de trabalho infantil em fábricas brutais; a vagabundagem nas linhas férreas; e prisão, sofridos dias no xadrez, trabalhando como escravo, corrompendo-se para sair vivo. Também tem o forte relato sobre sua adesão ao socialismo revolucionário.

Ainda nesse período, começo do século 20, redigiu “Martin Eden”, “As vozes da floresta”, “O lobo do mar” e “Caninos brancos”. Mas sua saúde se arruinara. Ele bebia demais, injetava drogas, escrevia 15 horas por dia — vivia em excesso. Jack London morreu em 22 de novembro de 1916. Uns dizem que se suicidou com uma dose cavalar de morfina. Outros que seu organismo arrebentou por si mesmo. Mas morreu. Tinha quarenta anos. E seu legado é um chamado irrecusável à aventura.
Obs.: embora eu tenha ativado links para as edições de Jack London pela LP&M, na verdade comprei meus exemplares em sebo, todos do extinto Círculo do Livro (dos idos dos anos 80, quando mal éramos nascidos…), exceto “De vagões e vagabundos”, que li da LP&M sem ter do que reclamar; e o volume da Sgnet Classics, que viaja comigo para todo lugar.