Tenho uma suspeita muito minha de que as estatísticas de RPG são estratégias eficazes para ocupar o vazio de nosso cérebro quando diante de uma folha em branco. Mas, num segundo momento, se mostram uma linguagem comum pela qual compartilhamos uma das características mais íntimas do ser humano, o ato de imaginar.
As estatísticas restringem as ações dos personagens a um conjunto limitado de possibilidades. Pintores não deveriam metralhar pessoas. Bárbaros deveriam falar errado. Esta limitação gera a complementaridade entre os personagens que se transforma em cooperação entre os jogadores, coisas indispensáveis numa atividade em equipe.
Porém, logo acontece um fenômeno singular. Surge uma pletora de descrições de ações em termos de regras puras: “ataco com bônus +5″, por exemplo. É como se as regras, que de início despertaram a imaginação dos jogadores, simplesmente a abafassem posteriormente.
Mas eu não penso assim. Eu defendo este jeito de jogar. Sim, porque todo mundo desse o pau nele, diz que carece de imaginação. O contraponto de “machado +3″ parece ser “queremos interpretação por aqui”.
Nas mesas, principalmente nas de d20 System, dizer bônus +5 tem um fundo imagético: ataque +5 é melhor do que ataque +1. É um ato colossal. Ao dizer apenas a estatística, liberamos os demais para imaginar a cena como quiserem, e mesmo assim mantemos a segurança de que todos imaginarão algo colossal.
Não há, portanto, uma redução da imaginação, mas sim a criação de uma linguagem comum dentro da qual a imaginação passa a atuar. Durante o jogo, descrevemos atos específicos por meio de uma linguagem geral. Por isso sistemas como d20 System sempre serão superiores aos nominalistas, narrativistas, descritivistas, interpretativistas, etc. O d20 System realmente nos permite intercambiar nossa imaginação porque ele formula uma linguagem geral.
Obs 1 disse d20 System para que jogadores atuais me entendam melhor e porque ele herdou características centrais do melhor RPG já concebido até hoje, o Advanced Dungeons and Dragons, o AD&D.
Obs 2 é claro que o fato de eu achar AD&D e d20 System (não o D&D 3.5, essa coisa tosca) os melhores do mundo não significa que você precisa achar também (nem que eu conheça todos os sistemas do mundo). Aliás, a graça está na divergência que uma opinião clara levanta.
Escrito por Camilo