A antiga arte do RPG de pancadaria pulsa em Wushu, criação de Daniel Bayn, traduzida em sua versão Open Game License por Gustavo “Guggawitze” Martinez, e divulgada aqui para sua diversão.
Além de baixar o Wushu Open em português aqui, você também pode aproveitar a planilha do personagem Wushu editada por Bruno Mãos de Tesouras, ex-editor do (infelizmente) extinto blog A Lesma do Azeite Olival e atual comandante do Calabouço das Dimensões; ou visitar Wushu Open em inglês, francês ou tcheco (esta última opção fica por sua conta).
Kung-fu aéreo, mortal e veloz
Wushu Open traz as regras básicas do Wushu Core Rulebook, um Role Playing Game (RPG) de lutadores de kung-fu cinematográfico: saltos espetaculares, hashis mortais como espadas, socos e chutes pondo abaixo paredes de pedra sólida.
As regras do Wushu são um banho de criatividade para RPGistas acostumados a perguntar aos dados se o personagem faz ou não alguma coisa.
Elas privilegiam a pancadaria desenfreada: vence quem dá mais porrada no inimigo, não quem calcula quadradinhamente a distância entre ele e os oponentes.

Quer criar um Wushu-Fighter?
1) distribua entre 5 e 8 pontos em seus Traits, coisas como profissão (policial, mergulhador, vendedor de macarrão, etc.), habilidades (telecinésia, esperteza, marcenaria, etc.) e, obrigatoriamente, uma arte marcial (kung-fu, karatê, judô, briga de rua, etc.).
2) Acrescente 2 pontos aos Traits que constam de sua planilha. Todos os demais, aqueles que você nem sonha existir, valem 2 pontos, e por isso não compensa anotá-los.
2) Escolha uma Fraqueza (seu personagem gosta de alguém que vive em apuros, ou então é viciado em ópio, etc.).
3) Anote que você tem 3 pontos de Chi.
4) Equipamentos: você tem o que precisa.
5) Evolução: não se preocupe – você já é o melhor! Pode, no máximo, redistribuir seus pontos em Traits, mas não aumentar os que já tem.
Desça a lenha nos inimigos
Os mooks são a ralé, a escória, os ninjas de roupa azul que seu ninja de roupa preta detona aos montes. Ou então uma bomba relógio. Eles são aquilo que toma tempo, pode até atrapalhar, quem sabe destruir, mas representam pouco contra um Wushu-fighter.
Já os nemesis são grandes vilões. Eles possuem Traits, 3-6 pontos de Chi, etc., como um Wushu-Fighter.
Os conflitos ocorrem no jogo de maneira bem narrativa e ágil. Primeiro, você diz como vai socar, estraçalhar, fatiar os mooks. Só então rola os dados.
1d6 você lança porque disse que faria algo. Mas pode rolar outros dados se gastou sua criatividade contando que passa uma rasteira num mook, quebra uma cadeira na cabeça de outro e retalha o terceiro com uma faca de manteiga. Três Detalhes além do 1d6 básico rendem para você 4d6.
Por fim você rola os dados! Cada dado menor ou igual a seu Trait relevante na cena (digamos, Bater 4), indica sucesso. Os dados maiores significam fracasso.
Contra mooks ou equivalentes, basta um dado de sucesso para obter sucesso na cena, ou seja, para seu personagem executar EXATAMENTE o que você descrever (segundo Bayn, este é o Princípio da Verdade Narrativa: as coisas acontecem como o jogador ou o Mestre declarou que aconteceriam).
Contra um nemesis, o combate se desenrola praticamente da mesma forma. Só que vocês dois descrevem a cena. E o nemesis também um tanto de dados igual à quantidade de detalhes que o Mestre descreveu.
Para descobrir quem vence, se seu personagem ou o nemesis, basta vocês rolarem cada um sua respectiva pilha de dados contra o Trait mais relevante na cena e comparar os dados de sucesso. Vence a cena quem obtém mais dados de sucesso.
Quem fala mais ganha dados…
Wushu Open concede um dado extra para cada detalhe que você descreve na cena de seu personagem.
Certos jogadores vão se destacar mais do que outros.
É fácil imaginar alguém dizendo: “Não gosto disto. Em outros jogos, todos são incentivados a participar com igualdade. Ninguém rouba o jogo por falar demais”.
Seria difícil imaginar alguém contra-argumentando que: “Nestes outros jogos, a prevalência de estratégias abstratas faz com que eu me dê mal”?
Estas duas posturas representam tradições retóricas distintas: a monológica e a dialógica.
A retórica monológica, dominante desde muito tempo, privilegia o raciocínio abstrato, a lógica numérica, a “estratégia militar”. Ele marca presença no Dungeons and Dragons e nos wargames.
A retórica dialógica, que estoura no mundo do RPG com os indies, dá destaque para o concreto, a variedade, o argumentar. Ela infesta o Wushu RPG.
Além de jogar Wushu e se divertir, ou se decepcionar, que tal comparar o estilo de argumentação proposto pelo Wushu e seu jogo preferido? Talvez você descubra sua retórica na vida de todos os dias.
AGRADECIMENTO:
Este post não teria sido escrito se o Bruno Mãos de Tesoura não me tivesse enviado o Wushu por e-mail. Valeu!!!