FAÇA DA HISTÓRIA UMA AVENTURA

O estilo de RPG mais famoso, a fantasia medieval, remete imediatamente a castelos, lendas, guerras, armamentos e costumes da nossa Idade Média.

Mas como aproveitar um texto de história para enriquecer uma aventura?

Vou sugerir um percurso de leitura que contribui para o Mestre perceber melhor os componentes da maioria dos textos de história e assim selecionar o que entra e o que não entra em sua aventura.

Resumo abaixo minha proposta para você rejeitá-la de vez ou seguir em frente:

DISTINGUA OS ELEMENTOS DO TEXTO E O ENTENDA. DEPOIS, COLOQUE ESSA LEITURA EM SUA AVENTURA COM A LIBERDADE QUE PRECISAR. SE UM NOME DE PERSONAGEM LHE AGRADA, SE SUAS AÇÕES SÃO INTERESSANTES PARA SUA INTRIGA, MAS VOCÊ NÃO SABE EXATAMENTE DE QUANDO A QUANDO ELE VIVEU, QUAL SUA ALTURA, ETC. INVENTE ESSAS COISAS E SE DIVIRTA!

Dividi este post em três partes: 1) a escolha da leitura; 2) uma maneira de ler textos de história; 3) dicas sobre como transformar a leitura em aventura.

1. ESCOLHENDO REVISTAS E LIVROS DE DIVULGAÇÃO

Esta proposta funciona para materiais de divulgação, tanto livros quanto revistas especializadas em história (confira no final uma listagem). Historiadores acadêmicos, bem mais complexos, demandam tanto uma abordagem mais refinada quanto leitores dispostos a aturá-los por dias a fio.

Ao percorrer livrarias e bibliotecas em busca de materiais de divulgação, fique atento para catálogos e Atlas históricos. Eles valem a pena exclusivamente quando ilustrados com fortalezas, jóias, mapas, máquinas, roupas, etc. que contribuam para caracterizar seu cenários de jogo.

2. LENDO UM TEXTO DE HISTÓRIA

Listo abaixo tópicos que nunca podem faltar no bloco de leitura do Mestre:

>>> Nome da revista, livro, etc., bem como nome do autor e páginas em que se encontra a matéria ou capítulo (esses dados facilitam consultas posteriores).

>>> Assunto: sobre o que fala o texto: Idade Média, Segunda Guerra Mundial, Gulags soviéticos, Revolução Francesa, Ascensão do Capitalismo?

>>> Época retratada: em que período se situam os fatos do texto? Note que os historiadores podem escrever sobre séculos ou apenas alguns dias com praticamente a mesma quantidade de palavras. A história do mundo poderia caber em um parágrafo assim como a história de um dia poderia se estender por todo um livro. O importante, nesse tópico, não é anotar todas as datas ou chegar a um período fechado (1725-1746, por exemplo), mas perceber o período amplo retratado pelo texto (século 18, segunda metade do século 20, etc.).

>>> Localização retratada: também aqui, como em “Época retratada”, o importante é o espaço amplo abordado pelo texto: Brasil, Europa, China, Ocidente, etc. com referências ligeiras aos locais específicos (Brasil, nordeste açucareiro).

>>> Personalidades: quais as pessoas e grupos sociais que aparecem no texto? Quais os papéis deles? Quando aparecem, desaparecem e por quê?

>>> Eventos: quais eventos acontecem no período retratado? Guerras, epidemias, revoluções, assaltos, inovações tecnológicas?

>>> Locais: quais locais integram o texto? Cafés freqüentados pela boêmia revolucionária, castelos sitiados, vilas fundadas, países conquistados?

>>> Argumento central: nem todos os textos de divulgação possuem argumentos centrais. Isso é privilégio dos bons. O argumento central tem a ver com o propósito do texto, ou seja, com o que ele pretende demonstrar e com o que o leitor conclui que ele efetivamente demonstra. Por exemplo, um bom artigo sobre a Revolução Francesa arrola personalidades, locais e eventos para demonstrar que esta conturbação francesa foi muito importante para o mundo porque dela se originaram os ideais de liberdade que até hoje impedem que sejamos presos sem mais nem menos por um policial. Outro pode arrolar personalidades, locais e eventos para demonstrar que a Revolução Francesa significou apenas a subida ao poder de um grupo social diferente dos antigos senhores feudais. Há historiadores, ainda, que arrolam personalidades, locais e eventos para demonstrar que a Revolução Francesa se resumiu a uma invenção imagética criada por grupos posteriores ao 1789: o realmente acontecido não passaria de uma turbulência social como outra qualquer.

Você pode organizar sua leitura num bloco de anotações dividido em “título do livro e autoria”, “assunto”, “época retratada”, “localização retratada”, “personalidades”, “eventos”, “locais” e “argumento central”.

3. CONVERTENDO A LEITURA EM RPG

Agora que você já leu, você conhece personalidades, locais e eventos. Conhece também um argumento central. Como lidar com eles? Um caminho é o seguinte:

ARGUMENTOS CENTRAIS ORIGINAM BOAS INTRIGAS PARA SUA AVENTURA. PERSONALIDADES, LOCAIS E EVENTOS COMPLEMENTAM ESSA INTRIGA E SE ENRIQUECEM MUITO SE VOCÊ OS COMPLETA COM SUA IMAGINAÇÃO E OS MISTURA COM PERSONAGENS, LUGARES E EVENTOS FICTÍCIOS. MUITOS LIVROS DE HISTÓRIA MOSTRAM PAISAGENS, PLANTAS DE PALÁCIOS, ARMAS E COSTUMES QUE PODEM SER APROVEITADOS EM PRATICAMENTE QUALQUER AVENTURA.

ATENÇÃO, MESTRE: SUA MESA DE JOGO NÃO É UMA SALA DE AULA.

NADA OBRIGA O JOGO A SEGUIR FIELMENTE O TEXTO QUE O INSPIRA.

NÃO SE PREOCUPE COM A VERDADE HISTÓRICA, COM OS DOCUMENTOS, COM A PROVA DE SEUS JOGADORES, COM NADA EXCETO A DIVERSÃO QUE A HISTÓRIA PROPORCIONA CONFORME SUA HABILIDADE DE SE APROPRIAR DELA DE MANEIRA CRIATIVA.

4. CONCLUSÃO EM FORMA DE ANEDOTA

Isaac Asimov inventou a queda do Império Intergaláctico a partir de “A queda do império romano”, de Edward Gibbon.

O RPG pede dos jogadores uma postura semelhante: que vejam a história como um poço de idéias mais completo do que qualquer módulo básico sonharia em ser.

O desafio é continuar imaginando ao abrir um livro de história.

5. LIVROS E REVISTAS RECOMENDADOS

LIVROS
>>> “1808”, de Laurentino Gomes, Editora Planeta.
>>> “O conflito com o Paraguai: a grande guerra do Brasil”, de Francisco Doratioto, Editora Ática.
>>> “Imperialismo greco-romano”, de Norberto Luiz Guarinello, Editora Ática.
>>> “A reforma agrária na Roma Antiga”, de Maria Luiza Corassin, Editora Brasiliense.
>>> “Guerra Civil Americana”, de Peter L. Eisenberg, Editora Brasiliense.

REVISTAS
>>> História Viva <http://www2.uol.com.br/historiaviva>.
>>> Revista de História da Biblioteca Nacional <http://www.revistadehistoria.com.br>.
>>> “E Portugal fugiu para o Brasil”: dossiê da Revista de História da Biblioteca Nacional inteirinho dedicado à vinda de D. João 6º para o Brasil. Reúne diversos artigos publicados pela revista ao longo de sua existência. Ótimo. E o melhor: completamente de graça em formato eletrônico. Acesse já em: <http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=1273>.

6 Respostas para “FAÇA DA HISTÓRIA UMA AVENTURA”

  1. Lobo Disse:

    Ótima matéria!
    Posso dizer, que de vez em quando fazemos isso sem ao menos saber que estamos fazendo, mas com essa matéria começarei a prestar mais atenção aos detalhes ja com esse pensamento.
    Principalmente para as minhas aventuras que tem uma forte tendência para política.
    Continue assim, Abraços.

  2. Camilo Disse:

    Que legal que você gostou. Mesmo assim, estou amolando a faca para encurtar o texto. Acho que ficou enorme.

  3. Camilo Disse:

    Dito e feito: afiei o texto. Espero que tenha melhorado!

  4. Phil Souza Disse:

    Esses PDFs são demais Camilo. Isso ajuda a ter mais uma forma de divulgação da trabalho, otimo mesmo.

  5. Foi culpa da barba « Camilo RPG Disse:

    [...] a história possa arejar as idéias de Mestres que responderam que novamente [...]

  6. Foi culpa da barba « Ludosis Disse:

    [...] a história possa arejar as idéias de Mestres que responderam que novamente [...]

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